Chegamos a mais uma semana da Querido Duolingo, uma coluna de dicas para quem estuda idiomas. Confira as nossas publicações anteriores aqui.

Olá, amantes de idiomas! É muito comum ter dúvidas sobre o inglês, não só quando estudamos essa língua, mas também quando já a conhecemos e vamos estudar outra. Por isso, esta semana vamos aprender um pouco mais sobre a fascinante evolução do idioma de Shakespeare.

Pergunta de hoje:

Ilustração de uma carta para a coluna que diz: Querido Duolingo, Estou aprendendo francês e percebi que muitas palavras são parecidas com as da língua inglesa. Por acaso o inglês é uma língua românica? Eu achava que ele tinha origens germânicas. Afinal, de onde veio esse idioma? Obrigada! Falante de inglês, amante de história

A história da língua inglesa envolve conquistas e derrotas, bilinguismo e contato linguístico, além de um idioma que incorpora de forma voraz palavras de toda comunidade que toca.

Quase nunca é claro quando uma língua “nasce” ou “surge”, pois grandes mudanças linguísticas não acontecem de um dia para o outro. Na verdade, um idioma “nasce” aos poucos e pode se modificar por vários motivos (post em inglês) — normalmente, isso acontece porque um grupo de pessoas mudou de lugar ou sofreu grandes mudanças na sua estrutura política, religiosa ou cultural.

No caso do inglês, foram todos esses motivos!

De onde veio a língua inglesa?
O inglês não é uma língua românica?
Como era o inglês antigo?
Qual é a diferença entre inglês antigo, médio e moderno?

De onde veio a língua inglesa?

Se você apostou que o inglês veio da Inglaterra, acertou — mais ou menos. E se apostou que ele não veio da Inglaterra, também meio que acertou!

Cerca de 1.600 anos atrás, a parte sul do que hoje chamamos de Inglaterra era um território com muitos pequenos grupos, reinos e tribos, além de um panorama linguístico complexo. Havia falantes de línguas celtas, como a que acabou se tornando o galês, e soldados romanos falando um ou mais dialetos do latim (post em inglês) — sem contar que muitos celtas também falavam latim.

Ou seja, em termos linguísticos, essa ilha relativamente pequena era bem agitada!

Por volta do século 5, diversos grupos de pessoas do norte da Europa (principalmente do que hoje corresponde à Alemanhã e à Dinamarca) se mudaram para o sul dessa ilha. Eles se chamavam anglos, saxões e jutos. Todos eram germânicos, ou seja, se diferenciavam dos celtas e romanos que já estavam ali em termos culturais, étnicos, religiosos e linguísticos. No final, o inglês (língua dos anglos e dos saxões) se tornou o idioma da Engla lond (terra dos anglos). Hoje chamamos essa variedade linguística de inglês antigo.

Mas isso foi só o começo. Alguns séculos depois, chegariam pessoas de origem escandinava (vikings!) que falavam idiomas provenientes dos lugares que hoje chamamos de Suécia, Noruega e Dinamarca.

O inglês não é uma língua românica?

Algumas partes da história da língua inglesa podem surpreender, dado o quanto esse idioma tem em comum com outras línguas, como o francês. Porém o inglês não é uma língua românica, e sim germânica, ligada a outras línguas germânicas do norte da Europa, como o alemão (post em inglês), o holandês, o sueco, o dinamarquês e o gótico (post em inglês), que não é mais falado. No entanto, o vocabulário do inglês tem muitas interseções com idiomas românicos, especialmente o francês!

O motivo é que o inglês continuou a evoluir após ter aparecido no sul da Inglaterra, e talvez o maior fator tenha sido a língua francesa — especificamente o francês normando, um dialeto falado na Normandia, região francesa próxima ao Canal da Mancha.

A grande virada foi em 1066: Guilherme, o Conquistador (também conhecido como Guilherme da Normandia) e os normandos invadiram a Inglaterra e se estabeleceram como a nova classe dominante. Por séculos, os falantes de inglês adotaram muito vocabulário do normando, inclusive o associado com prestígio, educação, governo e coisas “chiques” como culinária e arte. Essas palavras normandas foram inseridas na gramática germânica, e muitas dessas palavras e regras gramaticais sobreviveram a todos esses séculos!

Se olharmos para a parcela de palavras inglesas que foram empréstimos de outros idiomas, principalmente do latim e do francês, o número é imenso: chega a 80% (página em inglês). Mas essa estimativa engana, pois ela inclui todas as palavras dicionarizadas, até mesmo aquelas que os falantes raramente — ou nunca — usam no dia a dia. Veja a seguir outras estatísticas sobre o vocabulário da língua inglesa:

  • Das 100 palavras mais comuns em inglês, 96 vêm do inglês antigo e outras 3 (they, them, their — em português, respectivamente, “eles/elas” como agentes de uma ação, “eles/elas” como objeto do verbo e “deles/delas”) vêm do nórdico antigo e já estavam em uso no inglês antigo. A outra palavra dessas 100 não vem de nenhum desses dois idiomas que mencionamos: é a palavra very (em português, “muito”), do francês antigo!
  • Das 100 palavras na lista de Swadesh (uma proposta de listar um vocabulário essencial, mais resistente às mudanças linguísticas; post em inglês), 88 vêm do inglês antigo, outras 4 vêm do nórdico antigo e o resto, do latim e do francês. Esse rol inclui alguns números, termos relativos a familiares próximos, artigos (como the, artigo definido como “o/a/os/as” em português), palavras usadas para fazer perguntas (como what, ou “o que”), as principais partes do corpo e necessidades fisiológicas (como eat e drink, ou “comer” e “beber”) e vocabulário básico relacionado à natureza e animais.
  • Dos 100 substantivos mais comuns em inglês atualmente, cerca de metade vem do inglês antigo: 44 diretamente desse idioma e outros 4 do francês antigo, nórdico antigo ou latim, mas que eram usados no período do inglês antigo. E aposto que você já adivinhou de onde vem o resto: do francês e do latim.

Como era o inglês antigo?

Apesar de ter sido falado mais de mil anos atrás, sabemos muito sobre o inglês antigo porque ele é muito bem-documentado. É fácil encontrar o poema épico Beowulf (felizmente, junto com a tradução para o inglês moderno 😅) em livrarias e na internet. Além disso, Alfredo, rei dos saxões ocidentais, encorajou que se escrevesse muita história e literatura no dialeto saxão ocidental do inglês. Esse dialeto acabou se tornando o padrão do inglês antigo!

Para um falante do inglês moderno, a sua versão antiga parece um idioma completamente diferente, tanto na grafia quanto na sonoridade. Para entendê-lo, seria necessário estudar como se estuda qualquer idioma novo! E se você é falante de inglês e já se frustrou com alguma característica de um idioma europeu que estava aprendendo, tenho uma notícia: o inglês antigo provavelmente tinha essa mesma característica. Por exemplo, você já se perguntou…

  • Nossa, e esses tais de gêneros gramaticais? O inglês antigo tinha três categorias de gênero.
  • Por que *tantas* conjugações verbais?! Os verbos do inglês antigo tinham muitas variações de acordo com o sujeito e o tempo verbal.
  • Será que as pessoas lembram mesmo de todas essas terminações nos substantivos (post em inglês)? O que é o “dativo”, afinal?? Os substantivos do inglês antigo tinham terminações diferentes para (pelo menos) quatro casos gramaticais.

O inglês antigo tinha ainda mais em comum com outros idiomas germânicos do que o moderno. Aqui estão algumas características que você encontra no inglês antigo:

  • Letras diferentes: O inglês antigo tinha muitas combinações de letras e diacríticos (marquinhas como os acentos; post em inglês) que não usamos hoje em dia. Também contava com algumas letras que caíram em desuso, inclusive duas que são representadas pelo “th” no inglês moderno: uma para o som inicial em
    think
    (þ, chamada de letra “thorn”) e outra para o som inicial em
    those
    (ð, chamada hoje de “eth”).
  • Substantivos masculinos, femininos e neutros: Todos os substantivos em inglês antigo tinham um gênero gramatical. E quão arbitrário era esse gênero? A palavra
    wīf
    , que significava “esposa” ou “mulher”, era neutra, enquanto outra palavra para “mulher”,
    wīfmann
    , era masculina!
  • Quatro casos para os substantivos: Os substantivos do inglês antigo tinham formas diferentes dependendo do papel que ocupavam em determinada frase. Era um objeto direto? Um sujeito? Cada substantivo tinha uma forma para os casos nominativo, acusativo, genitivo e dativo (post em inglês). Além disso, havia terminações diferentes para o singular e o plural, assim como para os três gêneros gramaticais 🤯
  • Pronomes formais e informais: No inglês antigo, havia formas diferentes de dizer “você”, dependendo do grau de formalidade com a pessoa:
    þu
    era usada em situações informais, enquanto
    ge
    era formal. Adivinha qual dos dois caiu em desuso e qual deles se tornou formal e informal?

Qual é a diferença entre inglês antigo, médio e moderno?

Agora que já vimos um pouco das propriedades históricas e linguísticas do inglês antigo, vamos conhecer os estágios seguintes da língua inglesa:

Inglês médio

Quando: Por volta do século 11 ao 15. Tradicionalmente, se determina que o início do período do inglês médio é a Invasão Normanda de 1066.

Características: Perda do gênero gramatical e da maior parte das terminações de caso dos substantivos. Entretanto, o caso genitivo permaneceu; então, para dizer que algo pertencia a alguém, ainda se adicionava -es ao final, como em a sowes erys (em inglês moderno, a sow’s ears, ou seja, as orelhas de uma porca). A ordem das palavras se tornou menos flexível. Muito do vocabulário anglo-saxão foi substituído por palavras do normando e de estágios mais recentes do francês. Teve início a Grande Mudança Vocálica, quando a pronúncia das vogais do inglês médio começou a mudar e metade delas adquiriu uma pronúncia completamente diferente dentro de alguns séculos. Se você já se estressou com o fato de que a pronúncia do inglês não tem muito a ver com a ortografia das palavras, especialmente na parte das vogais, você se estressou com a Grande Mudança Vocálica.

Maiores influências: O francês, o francês e, ah, também tem o francês. Muitas palavras de origem latina entraram no inglês por meio do francês nesse estágio, e por isso o inglês conta com palavras de origem no inglês antigo — como ghost (fantasma), house (casa) e cow (vaca) — ao lado de palavras de origem francesa mais sofisticadas — como spirit (espírito), domicile (domicílio) e beef (carne bovina). Ocasionalmente o inglês adquiriu palavras francesas duas vezes, com séculos de diferença ou de diferentes dialetos do francês, o que resultou em pares de palavras emprestadas desse idioma! Por exemplo, cattle (gado) veio do normando, enquanto chattel (bens móveis) veio do francês central séculos depois.

Onde encontrar: Em Os Contos da Cantuária de Geoffrey Chaucer e na versão original de Sir Gawain e o Cavaleiro Verde — não confundir com o muito moderno A Lenda do Cavaleiro Verde.

Inglês moderno

Quando: Desde por volta do século 15 até hoje. A morte de Geoffrey Chaucer é um tipo de marco informal do fim do inglês médio e início do inglês moderno — o que significa que, quando se escreve em inglês hoje, se utiliza basicamente o mesmo tipo de inglês em que Shakespeare escreveu quatrocentos anos atrás. E claro, esse idioma ainda sofreu muitas mudanças desde então! Mas lembre-se que a mudança linguística geralmente é um processo gradual (post em inglês).

Características: A evolução da terminação -es do caso genitivo da língua germânica antiga para denotar posse, que hoje é o ’s em the child’s toy (o brinquedo da criança) e the team's win (a vitória do time). Nos últimos dois séculos, surgiram convenções para uma ortografia mais padronizada. As conjugações verbais sofreram uma redução significativa, então a maioria dos verbos têm apenas duas formas no presente (por exemplo, os verbos“falar” e “ver” têm apenas as formas talk e talks; see e sees, respectivamente) e um ou dois tipos de passado (talked; saw, seen). Muitos novos dialetos do inglês criaram raízes ao redor do mundo.

Maiores influências: Colonização, escravagismo e globalização. Quando os colonizadores ingleses se espalharam e se estabeleceram em todo o planeta, levaram consigo o seu idioma — geralmente junto com a destruição dos povos, línguas e culturas que lá havia. Como idioma da classe dominante e às vezes como língua franca (post em inglês), o inglês desenvolveu novas variedades que incorporaram palavras e estruturas gramaticais das comunidades colonizadas, influenciou outros idiomas (palavras inglesas são adotadas o tempo todo por línguas tão geograficamente distantes quanto o francês e o tailandês), deu origem a novas línguas pidgin e crioulas (como o idioma crioulo jamaicano e o pidgin inglês de Camarões; post em inglês) e se tornou o idioma de referência em algumas situações multilíngues (como em qualquer hostel em que já me hospedei).

Onde encontrar: Nas peças e sonetos de William Shakespeare, na música de Billie Holiday (e também na de Billie Eilish) e no blog do Duolingo em inglês.

Inglês ao longo do tempo

Não é difícil notar as diferenças na língua inglesa com exemplos por escrito! Veja uma amostra dos diferentes períodos com um texto que foi traduzido e atualizado em cada fase: a oração cristã “Pai Nosso”, que em inglês se chama Lord’s Prayer.

Lord’s Prayer (em inglês) Você percebeu?
Inglês antigo Úre Fæder, þú þe eart on heofonum
sí þín nama gehálgod.
Tócume þín ríce.
Uso de acentos e duas letras desconhecidas para nós (þ e æ). Ríce, a palavra usada para “reino”, não é muito diferente do Reich alemão. Se você sabe que ge- e tó- são prefixos, não fica difícil enxergar as palavras modernas hallowed (bendito) em gehálgod e come (venha) em tócume.
Inglês médio Oure fadir that art in heuenes,
halewid be thi name.
thi kyngdoom come to.
Agora começou a ficar mais reconhecível! As convenções ortográficas mudaram, causando a perda ou redução de muitos prefixos e sufixos. O ríce do inglês antigo foi substituído por outra palavra do mesmo período, kyngdoom.
Início do inglês moderno Our father which art in heauen,
hallowed be thy name.
Thy kingdome come.
Fácil de entender, mesmo com algumas coisas estranhas na ortografia. O pronome (que inicialmente era informal) thy (vosso) e a conjugação verbal art (estais) já haviam praticamente caído em desuso na fala comum, porém ainda eram utilizados em alguns contextos religiosos.

Inglês, um idioma tão diverso quanto os seus falantes

Como acontece com a maioria dos idiomas, a história da língua inglesa é cheia de mudanças e adaptações, dado que as pessoas que a utilizavam evoluíram cultural e politicamente — além de conquistar outros povos, que foram forçados a sofrer mudanças linguísticas também. Por isso, as variedades do inglês que usamos hoje em dia refletem influências de todo o mundo. Eu optei por acreditar que a banda britânica Modern English estava falando da atitude da língua inglesa em relação aos empréstimos linguísticos quando escreveu I’ll stop the world and melt with you (Vou parar o mundo e derreter com você).

Para saber sobre os detalhes de como os idiomas funcionam e como isso afeta o seu aprendizado, mande as suas dúvidas para dearduolingo@duolingo.com!