Chegamos a mais uma semana de Querido Duolingo, a nossa coluna de conselhos para quem aprende idiomas.

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Oi, gente! 👋 No momento em que eu escrevo este post, é quase junho. Nos Estados Unidos, no Brasil e em muitas outras partes do mundo, junho é o mês do orgulho LGBTQIA+. Como já conversamos, idiomas e identidade têm pontos em comum muito interessantes, desde o nosso uso de dialetos e sotaques até o nosso estilo de retórica, ou mesmo as línguas que escolhemos para estudar. Mas hoje queremos falar de um tema sobre o qual muitos de vocês me escreveram: a linguagem neutra!

A pergunta de hoje é:

Querido Duolingo,

Em todos os idiomas que estudo (espanhol, francês e árabe), o gênero do adjetivo tem que combinar com o gênero do substantivo. Mas, pelo que entendi, essas línguas têm terminações que em sua maioria formam adjetivos masculinos ou femininos. Como pessoa não binária, isso me leva a um impasse quando tenho que me descrever. Como a língua está em constante evolução com o tempo, gostaria de saber se já houve algum movimento para ultrapassar o binarismo de gênero nesses idiomas e abrir espaço para quem não se identifica com os gêneros tradicionais.

Atenciosamente,
Sem Binarismo

Obrigada pela pergunta reflexiva, SB! Estou animada para mergulhar nesse tema hoje e até chamei dois especialistas para ajudar. Mas antes…

Quando falamos de idiomas, o "gênero" pode ter pelo menos dois significados: pode querer dizer gênero gramatical, um sistema para categorizar substantivos, e também pode ser gênero natural, que são as categorias de gênero de pessoas e animais (e às vezes o gênero gramatical coincide com o natural). Falamos de idiomas com gênero marcado quando as palavras fazem uma referência explícita ao gênero das pessoas — talvez sem necessidade.

O ser humano procura significado nas diferenças, especialmente quando essas diferenças são reforçadas através da linguagem e de palavras específicas para cada gênero. Por que tantas das nossas palavras revelam o gênero, mas não a etnia, religião, cor dos olhos, destreza ou qualquer outra das infinitas variações entre as pessoas? Será que ficaríamos confortáveis em usar palavras diferentes para as pessoas que nos atendem em um restaurante de acordo com sua etnia ou cor do cabelo? Por que fazemos isso com o gênero? Será que tem que ser assim?

Para responder a essas perguntas e saber mais sobre a linguagem neutra pelo mundo, falamos com o Dr. Joshua Raclaw e Ártemis Lopez. O Dr. Raclaw é professor associado de inglês e linguística na West Chester University, onde estuda a relação entre gênero e linguagem. Já Ártemis traduz do espanhol para o inglês e vice-versa, e atualmente faz doutorado sobre os idiomas não binários.

Onde podemos ver o gênero em um idioma?

Pode ser que você escute mais sobre pronomes quando falamos de gênero (vamos falar mais sobre isso abaixo), mas ele aparece em outras partes de um idioma também.

Só para lembrar: o gênero gramatical é um sistema de categorias em muitas línguas, especialmente as que vieram da Europa, em que substantivos (mesmo aqueles que não têm a ver com pessoas) pertencem a uma dada categoria. Essas categorias geralmente têm nomes que soam como gêneros humanos ("masculino" e "feminino"), mas na verdade esses nomes são basicamente arbitrários!

Também existem muitos substantivos que incluem no seu significado o gênero de uma pessoa, como "mulher", "cavalheiros" ou "garçonete". No inglês, alguns substantivos com gênero marcado caíram em desuso com o tempo, substituídos por outros de gênero neutro. Assim, server ("pessoa que serve") vem sendo mais usado do que waitress ("garçonete"), flight attendant ("atendente de voo") praticamente substituiu stewardess ("aeromoça"), folks ("pessoal") aparece bem mais do que ladies and gentlemen ("senhoras e senhores"), entre outros exemplos.

Idiomas com categorias de gênero gramatical (como o português) têm uma camada extra de complexidade de gênero: substantivos e palavras associadas a eles pertencem a uma categoria, que geralmente é chamada de "masculino" ou "feminino". Isso quer dizer que substantivos que se referem a pessoas podem ter uma terminação específica para um gênero ou outro, e outras palavras, como adjetivos e artigos (palavras como "o", "as", "uma" e "uns"), podem variar de acordo com o gênero da pessoa. O Dr. Raclaw aponta que, para os substantivos que se referem a humanos, a categoria de gênero usada – e a sua aceitação pelos outros – é diretamente relacionada com o tratamento que os grupos minoritários recebem no geral, incluindo como eles querem se referir a si mesmos.

"Em um idioma como o francês, em que todos os substantivos recebem um gênero gramatical, a palavra para presidente tradicionalmente é expressa no masculino como le président, e a forma feminina, la présidente, costumava se referir à esposa de um presidente", Dr. Raclaw explica. "Durante um debate parlamentar na França em 2014, a política Sandrine Mazetier (que na época era a presidente socialista da Assembleia Nacional) pediu para ser chamada de la présidente – e quando outro político, Julian Aubert, não aceitou fazer isso, ele foi multado e advertido. Isso trouxe muitos debates sobre o que era mais importante para os falantes de francês: a categoria tradicional de uma palavra ou as mudanças linguísticas que reconhecem que o título de presidente não é apenas destinado a homens."

As línguas românicas não são as únicas com categorias de gênero gramatical; o árabe e o hebraico também têm essas categorias, e as formas como eles estão desenvolvendo alternativas inclusivas em relação ao gênero podem ser diferentes dos caminhos tomados pelas línguas românicas. O Dr. Raclaw deu um exemplo de como isso funciona no hebraico: "Alguns falantes simplesmente combinam os sufixos do masculino e do feminino (-im e -ot, respectivamente) para formar o novo sufixo inclusivo -imot, expandindo as formas plurais tradicionais da palavra 'amigos' (chaverot, chaverim) para acrescentar a forma inclusiva chaverimot."

A linguagem neutra não é um fenômeno novo!

Discutir – e mudar – as formas de representar os gêneros na linguagem não é uma coisa nova. "O uso de Ms. como um termo 'neutro' em relação ao estado civil das mulheres no inglês só se popularizou de fato no século XX", aponta o Dr. Raclaw, "e já tivemos muitas discussões questionando se Ms. seria correto ou o que o seu uso realmente significava". Para quem usa e estuda o inglês hoje, a inclusão de Ms. como uma opção de título pode não chamar muita atenção, porque já existe há décadas, porém novas adições e opções em um idioma podem provocar resistência, como esse termo provocou na época. Raclaw explica que "continuamos a ver o surgimento destas conversas porque politizamos o gênero há muito tempo e porque são debates que questionam se grupos minoritários merecem ser tratados de formas que reconheçam e afirmem a sua existência."

Uma mudança muito antiga no inglês em direção à linguagem neutra foi o uso do they (pronome de terceira pessoa do plural) para descrever uma pessoa só. They foi emprestado de outro idioma quando surgiu no inglês médio (a forma da língua inglesa falada antes do inglês moderno e que, isso mesmo, adotou um pronome novo!), e no começo as pessoas usavam como uma palavra para substantivos masculinos plurais, mas não demorou muito até que fosse adotado para se referir a uma pessoa de forma geral quando o seu gênero não é conhecido ou relevante. Em vez de usar he (que significa "ele" e tem gênero) ou alguma expressão mais longa, as pessoas começaram a usar de forma diferente uma palavra que já existia para preencher uma lacuna na língua.

Outros idiomas têm as suas próprias estratégias para chegar à linguagem neutra. No português e em muitas outras línguas românicas, os substantivos para as pessoas são ou masculinos ou femininos, então como se referir a um grupo de pessoas de diferentes gêneros? No espanhol, a forma masculina é tradicionalmente tida como o padrão, então por exemplo ellas (feminino) é usado para um grupo de mulheres, ellos (masculino) para um grupo de homens e também para qualquer outro caso: um grupo que inclui homens, mulheres e pessoas de outros gêneros, ou um grupo onde os gêneros não são conhecidos, etc. Mas muitas pessoas, especialmente não homens, apontaram que usar o masculino como padrão não é muito representativo. Falantes de espanhol encontraram alternativas ao padrão masculino, como palavras novas (elles), expressões diferentes (mis amigues ou mis amigxs como uma forma neutra de "meus amigos"), ou mesmo deixar de usar o pronome quando possível. Também há formas de falar que evitam o gênero, como dizer le damos la bienvenida – algo como "te damos as boas-vindas" – em vez de usar bienvenido ("bem-vindo") ou bienvenida ("bem-vinda") de acordo com o gênero de alguém.

Pronomes de gênero neutro e neopronomes

Outra parte da língua onde vemos os gêneros das pessoas é nos pronomes. Pronomes são palavras que substituem substantivos, por isso eles podem se referir a pessoas e também a outros seres e coisas. Muitos idiomas têm relativamente poucas opções de pronomes aplicáveis a humanos em comparação com todas as múltiplas formas que existem para humanos expressarem gênero, e às vezes as pessoas desejam se comunicar sem ter que dar informações sobre gênero. Talvez você tenha pensado nisso ao ler textos mais antigos que usam o masculino como padrão ou o desajeitado "ele/ela". Qual a necessidade de sempre informar o gênero de uma pessoa hipotética em manuais de instrução ou formulários jurídicos?

Assim, os idiomas e os seus falantes se desenvolvem em novas direções e com novas categorias, de acordo com as suas necessidades. Para saber mais, conversamos com Ártemiz López sobre como vários idiomas têm apresentado mudanças nos pronomes.

Qual é a diferença entre pronomes neutros e neopronomes?

Ártemis: "Neopronomes" são palavras que são novas (neo), ou seja, pronomes que não são tradicionais, enquanto "pronomes neutros" é um termo mais geral que pode incluir tanto novos pronomes como também pronomes tradicionais, desde que não tenham gênero. Em idiomas como o inglês, as pessoas costumam dizer os seus pronomes com mais de uma palavra, como they/them/themself, principalmente porque os neopronomes são muito novos e podem ser confusos para quem nunca viu ou usou antes, mas também porque no inglês os pronomes mudam de acordo com o seu papel na frase.

Os pronomes neutros e neopronomes evoluem da mesma forma em diferentes idiomas?

Ártemis: Como cada idioma e cada comunidade são distintos, a linguagem não binária ou neutra não vai se desenvolver igualmente em todos os idiomas, ou mesmo em comunidades diferentes que falam o mesmo idioma. Por exemplo, o galego, uma língua românica falada no noroeste da Espanha, tem dois sistemas não binários atualmente em evolução, que se popularizaram ao mesmo tempo e simplesmente são falados por grupos diferentes de pessoas. Só o tempo dirá se os dois vão continuar, ou só um, ou mesmo se um terceiro sistema será criado! Então, se uma mesma língua em uma área geográfica relativamente pequena pode ter dois sistemas separados, como poderíamos esperar que línguas diferentes em continentes diferentes tivessem a mesma evolução?

Quais são alguns pronomes neutros e neopronomes em diferentes idiomas?

IDIOMA PRONOMES NEUTROS
Inglês they/them/themself
ze/hir/hirself
xe/xyr/xyrself
ve/ves/veself
ey/em/emself
E a lista continua! O inglês tem um mundo de opções de neopronomes.
Espanhol elle
Francês iel
∅l
al
Alemão xier/xies/dier
sier/sies/dier
Português elu/delu
ilu/dilu
ile/dile
el/del
Galego eli
elu
Catalão elli
Chinês 他 (“ele”) e 她 (“ela”) são escritos de forma diferente, mas têm exatamente a mesma pronúncia (tā)! As opções X也 e 无也 são usadas para tornar a forma escrita neutra.

Como descubro os pronomes de uma pessoa?

Ártemis: Antes de tudo, devemos ter em mente que nem sempre precisamos saber os pronomes de alguém. Por exemplo, se você está no supermercado e a pessoa na sua frente deixa algo cair, não só o gênero dela é irrelevante mas também é muito provável que você nunca mais a veja de novo. Podemos simplesmente dizer "com licença" em vez de "senhor/senhora" ou mesmo de perguntar quais os pronomes dela. Por outro lado, se for relevante saber o gênero de alguém, é importante ter em mente que, quando você pergunta, também se compromete a usar o gênero informado pela pessoa dali em diante.

Nas línguas românicas, geralmente nem precisamos perguntar, é só ouvir. Se uma pessoa diz heureuse (feminino de "feliz" em francês) em vez de heureux ("feliz" na forma masculina), podemos presumir que essa pessoa usa pronomes femininos. Contudo, se não ouvir nenhuma palavra assim e precisar perguntar, é uma boa ideia falar do seu gênero também. Veja alguns exemplos a seguir:

  • “Oi! Qual gênero eu posso usar para falar com você? Eu uso palavras não binárias para mim mesme.”
  • “Qual pronome você usa? Eu uso ‘ela’.”

Os idiomas são tão diversos quanto os seus falantes

Os idiomas têm um grande poder: eles chamam a nossa atenção para certas características, e quando não conseguimos achar uma palavra ou uma maneira de dizer o que queremos, criamos outras! O gênero é só uma parte da experiência humana que pode gerar mudanças em um idioma. Aproveite o mês do orgulho LGBTQIA+ para observar o que acabou de mudar e o que está em processo de transformação, tanto na sua língua nativa quanto na que você aprende.Vamos adorar saber os padrões que você percebeu e as perguntas que surgiram. Envie as suas ideias para o Querido Duolingo pelo e-mail dearduolingo@duolingo.com.