Chegamos a mais uma semana da Querido Duolingo, uma coluna de dicas para estudantes de idiomas. Confira as nossas publicações anteriores aqui.
Olá, pessoal! Nesta semana na Querido Duolingo, vamos responder a uma pergunta sobre países e idiomas que passa pela cabeça de muita gente. Será que você sabe a resposta? Ou melhor, as respostas?
A pergunta da semana é:

Essa pergunta vai muito além do idioma, envolvendo também cultura, política e história; por isso, vou trazer a perspectiva linguística! O nome de um país está intimamente ligado a quem está no comando (post em inglês), tanto da língua quanto do país. Muitas vezes, o nome que uma comunidade dá ao local onde mora é modificado à força por causa da colonização. Além disso, o nome que uma comunidade usa para chamar a si mesma costuma ser diferente do nome que os vizinhos usam para se referir a ela. (Esse fenômeno por si só já rende uma boa história. Se você tiver interesse, mande a sua pergunta!)
Aqui, vamos focar principalmente em países, mas esses fatores também influenciam nomes de locais como regiões e cidades — e até os nomes que usamos para designar os idiomas.
Nem sempre os lugares têm um único nome, mesmo entre os próprios habitantes! Especialmente em comunidades multilíngues, pode haver diferentes pronúncias ou até nomes totalmente distintos. A cidade espanhola de Barcelona é um exemplo disso: na pronúncia do espanhol europeu, o som do “c” é como o som do “th” na palavra inglesa thing. No entanto, a cidade fica na região da Catalunha, onde se fala catalão, e nesse idioma o “c” é pronunciado como um “s”, assim como no português! Então, a pronúncia espanhola de Barcelona pode ser bem diferente da pronúncia catalã.
Aqui estão mais alguns motivos pelos quais a forma como pronunciamos o nome de outros países nem sempre coincide com a forma como eles mesmos se chamam!
1. Desafios na pronúncia
Assim como outras palavras, os nomes de países em outro idioma podem ter sons diferentes dos que temos em português. Às vezes, esses sons são totalmente distintos — como a pronúncia espanhola de Costa Rica, com o “r” vibrante, que não existe em muitas variedades da língua portuguesa.
Mas também é muito comum que outros idiomas tenham sons parecidos com os que temos em português… Então, será que deveríamos aprender uma versão francesa do “r” (que parece vir do fundo da garganta) para pronunciar France, o nome da França em francês? E, se mantivermos a pronúncia do “r” como fazemos em português, poderíamos dizer que estamos usando o nome francês do país? 🤷🏻♀️ Que questão filosófica interessante!
Trocar sons semelhantes pode parecer aceitável para nós, que não somos costa-riquenhos ou franceses. Contudo, quando acontece o contrário (por exemplo, se “Brasil” for pronunciado com sotaque espanhol ou francês), podemos achar que não é parecido o suficiente para considerar que é a mesma palavra.
2. Desafios na escrita
Outro motivo pelo qual não é tão simples usar o nome verdadeiro de um país no nosso idioma é a ortografia: será que deveríamos escrever esses nomes com os seus próprios caracteres, grafias e outros sinais (como acentos)?
Às vezes, usamos a grafia original de um lugar (como nos nomes em português para Argentina, Chile, Malta e México) mesmo que a pronúncia seja muito aportuguesada, mas geralmente omitimos ou adaptamos letras e caracteres que não existem em português. Por isso, você não verá ñ em “Espanha” (que é España em espanhol) ou ŵ em Maláui (que é Malaŵi na língua nianja). Há também muitos casos em que poderíamos escrever o nome do país com a grafia original, como Sverige para Suécia, Deutschland para Alemanha e United States of America para Estados Unidos da América… mas simplesmente não fazemos isso! E, de fato, mesmo que fizéssemos, esses idiomas usam sons diferentes para as letras que nós também temos, então usar a grafia deles não garantiria a pronúncia “correta”.
É claro que muitos nomes de países são escritos com um sistema de escrita totalmente diferente (post em inglês) do nosso, e aí fica realmente complicado descobrir como representar a pronúncia com o sistema que usamos em português! Por exemplo, embora existam sistemas para representar letras árabes no alfabeto latino, alguns sons do árabe simplesmente não existem na língua portuguesa. O nome do Iraque em árabe é العراق [al-3iraaq], com o som ع (representado pelo “3” e pronunciado mais ao fundo da garganta do que qualquer outro som em português) e com o som ق no final (representado pelo “q” e também pronunciado mais ao fundo da garganta do que o nosso “q”).
Isso também significaria que os falantes de português precisariam conhecer as convenções de transcrição dos sons árabes — algo que apenas quem estuda esse idioma costuma aprender!
3. Traduções para deixar mais claro
Às vezes, nomes de lugares incluem palavras ou expressões que podem ser traduzidas, o que os torna mais claros em outro idioma. É o caso do nome da África do Sul em espanhol, Sudáfrica: a palavra espanhola para “sul” é sur, que se torna sud- como prefixo antes de uma vogal (como em Sudamérica para “América do Sul”).
Pessoas que estão aprendendo uma língua também podem ter a experiência de não “entender” um nome no seu próprio idioma até aprendê-lo na língua nova. Por exemplo, falantes de português que não sabem muito sobre a história ou a geografia da Islândia podem achar que o nome desse país não tem nada de especial, sendo apenas parecido com o nome em islandês, Ísland. Porém, quando aprendem o nome em inglês, Iceland (ice + land, ou “terra do gelo”), ele passa a fazer sentido! 💡
4. Falta de consenso
Assim como acontece com Barcelona (e também com Ibiza!), há muitos casos em que não existe uma única pronúncia do nome de um país, nem mesmo entre a própria população. Até em países com uma única língua nacional podem existir diferenças de dialeto e de sotaque (post em inglês) que afetam a forma como o nome é pronunciado.
Outro exemplo é France: o nome do país é pronunciado com uma sílaba no francês-padrão, mas, para muitas pessoas no sul da França, ele tem duas sílabas, devido à influência da língua occitana. Então, será que uma pronúncia é mais “correta” que a outra (post em inglês)? E qual delas os outros idiomas deveriam escolher? Não parece que esses outros idiomas realmente possam decidir!
Alguns nomes de países também têm várias pronúncias mesmo dentro da língua-padrão. Por exemplo, na Tanzânia você pode ouvir tanto TanzaNIa (com ênfase em “ni”) quanto TanZAnia (com ênfase em “za”).
Além disso, a mudança na pronúncia é inevitável (post em inglês) com o passar do tempo! E isso acontece nos dois idiomas: ao longo de décadas e séculos, a língua falada no país vai mudar, e os sons do português também. Por isso, é difícil imaginar que os falantes de português vão acompanhar as mudanças de pronúncia de outra língua!
5. Relíquias históricas
Acho que essa razão é a mais fascinante 🤓 Há alguns nomes de países que variam imensamente em diferentes idiomas pelo mundo, tanto por razões relacionadas à história, às fronteiras políticas e à cultura, quanto por razões relacionadas ao próprio idioma.
A Alemanha é um ótimo exemplo disso. Em toda a Europa, as palavras para o nome da Alemanha e o nome da língua alemã têm muitas raízes diferentes:
| Idioma | Nome da Alemanha | Nome do idioma alemão |
|---|---|---|
| Alemão | Deutschland | Deutsch |
| Espanhol | Alemania | alemán |
| Finlandês | Saksa | saksa |
| Francês | Allemagne | allemand |
| Inglês | Germany | German |
| Italiano | Germania | tedesco |
| Polonês | Niemcy | niemiecki |
| Português | Alemanha | alemão |
| Russo | Германия (Germaniya) |
немецкий (nemetskiy) |
| Sueco | Tyskland | tyska |
Mas como isso acontece?!
Parte da explicação é política. A Alemanha foi unificada como país no fim do século 19 e, antes disso, o país como conhecemos hoje na verdade era composto por dezenas de nações, ducados e reinos menores. Entretanto, não havia uma “Alemanha” como a atual: o que era considerado “alemão” como uma etnia (e também como uma língua) evoluiu ao longo do tempo e disputou espaço com outros nomes de países e lugares, como Prússia, Baviera, Hanôver etc.
Então, de onde vieram todos esses nomes? As raízes de “alemão”, German, Saksa e niemiecki refletem as diferentes tribos germânicas que se espalharam pela Europa Central e Setentrional.
- Os Alemanni eram uma tribo ou grupo de tribos do leste da França e da Suíça. Assim, os povos que tiveram contato com os Alemanni têm palavras para “alemão” e “Alemanha” relacionadas a essa tribo!
- Os Germani eram uma tribo que talvez nem fosse germânica! Essa era a palavra usada em latim para um grupo específico de povos no norte da Europa, e muitos idiomas europeus herdaram essa raiz para formar as suas próprias palavras para “alemão” e “Alemanha”.
- Os saxões eram uma tribo germânica do norte da Europa. Em determinado momento, eles seguiram para o oeste, em direção às Ilhas Britânicas, levando a sua língua com eles.
Mas essas não eram as únicas palavras para designar tribos germânicas específicas, as regiões onde algumas delas viviam ou outras coisas relacionadas a esses povos. Muitos dos idiomas e dialetos falados por elas tinham uma palavra como thiudisk para se referir a um grupo de pessoas, como uma tribo. Essa palavra evoluiu de maneiras diferentes nas diversas línguas germânicas, dando origem a mais algumas palavras que foram adaptadas para se referir à Alemanha moderna e ao idioma alemão:
- Ela se tornou Dutch em inglês, o que pode causar confusão: embora no passado essa palavra se referisse à Alemanha e à língua alemã, hoje ela se refere à língua holandesa! 😵💫 Inicialmente, o termo Dutch era usado no século 14 para designar os povos germânicos do norte da Europa. Porém, alguns séculos mais tarde, o significado evoluiu para designar apenas parte desses povos germânicos — os que viviam na atual Holanda.
- Ela se transformou em Tysk nas línguas escandinavas (e os falantes desses idiomas também descendem de tribos germânicas do norte!).
- Ela evoluiu para tedesco em italiano, que hoje é a palavra usada nesse idioma para se referir à língua alemã.
Em relação às palavras eslavas para Alemanha e alemão, aquelas do tipo Nemet- vêm de uma palavra do eslavo antigo que significa “quieto” ou “mudo” — possivelmente usada para se referir a estrangeiros, porque eles não falavam “corretamente”… ou seja, não falavam eslavo! 😅 Curiosamente, essa palavra de origem eslava (e de certa forma centrada nas línguas eslavas) foi a que evoluiu para o nome árabe de outra parte do mundo que fala alemão: an-Nimsa, que significa “Áustria”!
“Idioma” é o nosso sobrenome!
Os nomes que usamos para falar de países e línguas são como pequenas cápsulas do tempo que registram a história política e linguística de um país — e também a relação do nosso próprio idioma com com essa história!
Tem outras dúvidas sobre idiomas e pronúncia? Entre em contato com a gente pelo e-mail dearduolingo@duolingo.com e mande a sua pergunta!